Eu não sou livre

julho 29, 2014

Há tempos estou com o rascunho deste texto semi pronto, e hoje depois que um cara tentou me beijar na rua, fiquei muito enraivecida e consegui terminar de escrever meu relato aqui.

Teoricamente, moro num país democrático onde as pessoas tem liberdade para se expressar e agir como queiram, respeitando alguns limites que as leis e princípios morais nos colocam.
Nós temos a liberdade de escolher em quem queremos votar nas eleições, liberdade pra decidir em qual escola nossos filhos vão estudar, liberdade pra escolher uma religião (ou mais de uma, sem que isso seja um problema).

Mas eu não me sinto livre aqui. Não me sinto no direito de ir e vir, de vestir a roupa que quero, de andar sozinha na rua.

 * Primeiro porque eu nasci mulher, e desde muito pequena sou assediada na rua, nos ônibus, dentro do cinema (aconteceu), na escola, e cresci aprendendo que isso é uma coisa "normal" e cultural.



Tinha uns 13 anos quando voltava do meu curso de inglês dentro de um ônibus lotado, tentava me equilibrar de pé enquanto segurava meus livros e me apoiava nas barras quando comecei a sentir algum objeto me encostando na bunda. Como o ônibus tava lotado, pensei que fosse a pasta ou mochila de alguém, pois o ônibus tava lotado e era compreensível que os objetos alheios te encostassem. Eu me mexia pra sair do lugar e a tal pasta continuava a me encostar. De repente a pasta criou dedos, palma da mão e tudo. Ainda assim, não conseguia acreditar que fosse a mão de alguém que estava me apalpando propositalmente, pois aquilo ja durava bem mais além de uns meros segundos. E durou uma eternidade, pois meu choque era tão grande que não sabia o que fazer. Olhei discretamente para trás e havia um homem alto, com seus 30 anos (eu era criança e não saberia dizer muito bem a idade de uma pessoa, mas ele não era velho e nem era outra criança) olhando para o outro lado. Continuei incrédula e ao mesmo tempo a mão voltava a apalpar minha bunda. Aquilo parecia não ter fim, quando eu consegui um lugar vago mais na frente do ônibus e a pasta com dedos parou de me tocar.
Fui pra casa me sentindo muito mal, envergonhada, descrente do que tinha acontecido. Fiquei achando que era por causa da minha calça de ginastica que ficava um pouco justa nas pernas. Pensei em mil coisas e guardei aquele momento para mim.

Não muito tempo depois, eu pegava um ônibus (dessa vez quase vazio) para ir ao mesmo curso. Era quase 13 horas, eu sentei no lado da janela. A cada parada que o ônibus recolhia mais passageiros, as pessoas iam se sentando cada uma em seus bancos, sozinhas, pois tinha lugar sobrando. Um senhor bem idoso resolveu sentar ao meu lado. Achei muito estranho, pois afinal tinha vários bancos vazios sobrando pra ele sentar. E sentou, e colocou o casaco dele em cima dos braços. Quando comecei a sentir que o casaco tava encostando na minha perna, fiquei em alerta e percebi que o casaco também tinha dedos! Dessa vez não tive dúvidas e fui checar se era mesmo a manga do casaco ou a mão de um velho safado. Quando peguei na mão dele encostada na minha coxa, torci os dedos daquele velho com toda minha força e comecei a gritar "seu tarado! sem vergonha! não tem respeito?! some daqui!!" e torcia mais os dedos dele. Todo mundo ficou apavorado e sem reação, e o velho quietinho se levantou e desceu no próximo ponto. E eu fiquei ali incrédula e chorando de raiva. E ninguém veio falar comigo.

Depois veio a vez do cinema lotado, onde um cara sentou ao meu lado e tentou fazer o mesmo jogo do casaco, e eu reagi da mesma forma e as pessoas ao redor também, sem reação. Também tiveram as varias vezes que passaram a mão no meu corpo na rua, sem consentimento algum.
E nem entrei no mérito de falar sobre as baixarias que escuto na rua de estranhos, desde o mais esfarrapado mendigo até homens engravatados e bem vestidos. Também não vou entrar no mérito de contar sobre como foi crescer num bairro conhecido por suas zonas de prostituição, e que ao tentar atravessar a rua e esperar os carros passarem, tinha que lidar com carros parando pra me perguntar quanto era o programa. E ao esperar o ônibus no ponto que tinha ao lado de casa, era obrigada a ouvir as mesmas coisas (uma tarde durante a semana cheio de movimento de carros e pessoas, tive que escutar de um velho "mas já ta aqui a essa hora, guria?").

* Segundo que além de ser mulher, ter que controlar a roupa que uso dependendo de onde vou, cuidar pelas ruas que passo, evitar certos lugares em certas horas do dia, eu vivo num apartamento cheio de grades, dentro de um prédio cheios de grades. Não tenho a liberdade de caminhar de noite pelas ruas para fazer meu exercício físico diário e gratuito, pois de noite tudo fica mais perigoso, principalmente para quem é mulher. Se eu decido me encontrar num bar com uns amigos para jantar um xis e tomar alguma coisa, preciso me programar para gastar com taxi (e ainda assim ter muito cuidado), pois não posso ir a pé e voltar de ônibus, mesmo que ainda tenha ônibus circulando, pois dependendo do lugar que for vai ser perigoso.
Não me sinto muito à vontade de usar roupas mais curtas e frescas no calorão que faz aqui, pois é certeza de ouvir piadinha e ser assediada. Quando entro no trem ou um ônibus muito lotado, é sempre aquele sufoco em cuidar pra não ficarem se esfregando em ti, além de ter que cuidar pra não abrirem tua bolsa ou mochila e te furtarem.
Nos domingos, durante o dia mesmo, não posso caminhar por várias ruas, pois é certeza de encontrar marginais que vão tentar te assaltar (sem exageros, tentem ir sozinhos caminhar pelo centro ou arredores da rodoviária).

Daí vão me falar que é assim mesmo, que tá perigoso em qualquer lugar, etc e tal.
Mas puta que pariu, é assim mesmo e assim mesmo continuam dizendo que somos livres?
Livres pra andar na rua a caminho do trabalho todo santo dia e ser assediada? Livre pra ter que carregar menos coisas que chamem a atenção de ladrões? Livre pra não poder usar um celular na rua, pois pode ser um tanto chamativo e tentarem te assaltar? Livre pra entrar num ônibus e agarrarem tua bunda?
Livre pra escutar de um completo estranho "hmmm, delícia, vou te chupar todinha", "gostosa, pega aqui ó" e ao reagir a isso chamando a pessoa de grosseira ter que escutar coisas piores como "sua mal comida, ta precisando de um pau", "cala a boca, vagabunda", etc e etc e etc.

Eu sei que estão acontecendo guerras e outras atrocidades bem piores neste momento pelo mundo, mas nada vai atenuar o fato de que ser mulher no Brasil é uma merda ainda.





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10 comentários

  1. (Tinha postado antes, mas acho que o comentário anterior não foi)

    São situações horríveis e humilhantes mesmo. O pior é essa cultura machista que incentiva esse tipo de comportamento e acha um exagero quando reclamamos de assédio nas ruas. Elogio o caramba! Chega disso! :((((

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  2. Puxa, primeiramente sinto muito por vc ter ja passado por tudo isso é segundo, ser mulher sempre foi e sempre será difícil, uma guerra silenciosa que NUNCA acaba no mundo.

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  3. Isso é uma vergonha e um descaramento por parte de um "homem" que se presta a esse papel. Infelizmente o Brasil é um país machista e situações como essas que você relatou são mais comuns do que se imagina e elas acabam sendo toleradas e tratadas com uma certa normalidade pela sociedade. Uma lástima. Bjs

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  4. Ótimo texto, Grazi. É o tipo de coisa que me irrita nesse país. No fim, tudo é uma questão de respeito ao próximo e nisso o Brasil ainda está à anos luz do avanço.

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  5. Grazi, eu sinto muito por tudo o que você passou até hoje. É claro que já ouvi coisas horríveis nas ruas, mas não me recordo de terem encostado em mim. Você conseguiu falar nesse texto tudo o que eu sinto e não consegui dizer ainda, é uma pena que tenhamos que viver duplamente presas, pois pra gente não é só o risco de sermos assaltadas, né... uma tristeza isso tudo :(

    beijos

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  6. Que sacanagem!
    Já passei por isso Grazi. Um cara me passou a mão dentro do trem super lotado, não vi quem era, mas com certeza ele nunca me esqueceu porque torci o dedo dele com tanta força que ouvi um estalo seguido de um ai
    kkkk Palhaço!
    Isso é um absurdo! Que falta de respeito com as mulheres, eu hein!?

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  7. Obrigada por todas as mensagens de apoio, meninas! A luta continua!

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  8. Triste ler esse relato, pois me trouxe péssimas lembranças das coisas que já passei também, os assédios dentro do ônibus no caminho da universidade. Triste realidade, mas infelizmente, essa é a mentalidade de grande parte dos homens brasileiros. Crescem sem saber o que é respeito, são moldados por uma sociedade machista que acredita que mulheres são brinquedos sexuais. Lamento você ter passado por tudo isso. Realmente, não somos livres. E quem sabe quando seremos?!

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  9. Brasileiros de forma geral não tem educação, são folgados, estúpidos, idolatram a esperteza e o crime. A cultura brasileira prioriza a ignorância acima de tudo. Fora que é um povo feio e sujo pra caralho, principalmente em algumas regiões.
    Esses dias assisti o programa "A Liga" que estava mostrando os bailes funk no Rio de Janeiro, chegava a dar nojo das coisas que mostravam, na hora pensei que eu não devia ter nascido nessa merda de país.

    Não acho que outros países sejam muito melhores, afinal vivemos numa era de ignorância generalizada, mas com certeza são melhores do que o Brasil. Espero um dia conseguir sair daqui.

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  10. Me identifiquei e esse é um post que ilustra bem um dos maiores motivos pelo meu amor pela Alemanha e pela vontade de ficar pros lados de cá. Não existe nada pior do q se sentir um pedaço de carne em uma jaula de leões... a liberdade de ser como vc quiser e de ir e vir não tem preço!

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